A oferta RLP (Retail Liquidity Provider) é uma modalidade de oferta onde os intermediadores do mercado, no caso, corretoras e bancos, agem como contraparte dos negócios de seus clientes. RLP é um acrônimo para Retail Liquidity Provider e o objetivo desta nova modalidade de oferta é prover maior liquidez aos traders do mercado financeiro.

O Que é Oferta RLP (Retail Liquidity Provider)

A RLP é uma modalidade de oferta, disponível para o mercado brasileiro desde 05/08/2019, onde os intermediadores dos negócios, bancos e corretoras, podem agir como contraparte de seus clientes pessoa física (varejo) em seus negócios.

Ou seja, sua corretora ou banco poderá atuar direta e ativamente nos seus negócios, provendo liquidez ao trader.

É como se a corretora/banco do trader passasse a ser um novo trader no mercado, atuando tanto no lado da compra quanto na venda dos ativos em que o RLP esta disponível.

Em outras palavras, os intermediadores podem negociar diretamente com os clientes de sua carteira.

A consulta pública para implementação da RLP começou em 19 de Dezembro de 2018.

Fase Inicial

A partir da disponibilidade do serviço, o mesmo fica em fase de teste por 12 meses.

A CVM, B3 e BSM, durante o período de testes, monitorarão alguns dados, tais como:

  • Indicadores de liquidez
  • Spreads
  • Percentual de negócios realizados em condições melhores que a de mercado

Como Funciona a Oferta RLP

Existem alguns parâmetros para que a oferta funcione, que seguem:

  • A oferta RLP não ficará visível no book de ofertas. Apenas a corretora que a enviou pode visualizá-la. Assim que o negócio for fechado, ele a RLP será visível a todos no histórico de negócios (Times & Trades).
  • Ela poderá ser usada, exclusivamente, para fechar negócios de clientes de varejo (pessoas físicas).
  • Caso o negócio não seja fechado, a oferta RLP é cancelada ao final do dia.
  • O preço é ajustado pela plataforma de negociação, de forma automática, para oferecer as melhores condições de liquidez e preço ao cliente pessoa física. Assim, ao fechar um negócio, o cliente da corretora/banco terá sempre um preço igual ou melhor do que o disponível no book de ofertas.
  • Quando os preços forem iguais aos do book de ofertas, quem estiver aguardando o fechamento de negócio terá prioridade garantida, caso ofereça uma quantidade suficiente para atender, total ou parcialmente, a oferta do cliente de varejo da corretora.
  • O número de contratos negociados não poderá superar um determinado percentual que será revisto periodicamente. Inicialmente, o volume de RLP agregado do mercado não poderá superar 15%.
  • A adesão à RLP por parte do cliente não é obrigatória, sendo que o mesmo deverá autorizar a sua corretora/banco a fazê-lo (o famoso “aceite”).
  • Durante o período de teste, apenas os mini-contratos de índice e dólar terão a RLP disponíveis.

O Trader Deve Aderir à Oferta RLP?

Como a razão da oferta é prover liquidez para o trader, é meio que um contrassenso não aderir.

Visto que o preço de execução da oferta RLP tem que se melhor ou igual o do mercado, na pior das hipóteses não mudará nada quando sua ordem for executada.

Não parece uma má ideia.

Inclusive, há corretoras oferecendo corretagem grátis para quem aderir ao programa.

A Corretora Deve Aderir à Oferta RLP?

Os intermediários não são obrigados a aderir à RLP.

Cada instituição deverá considerar, baseada em seu modelo de negócio, se a oferta RLP é viável ou não.

As Responsabilidades das Instituições

Caso a instituição decida por fazer o uso da RLP, ela estará autorizada a agir como contraparte dos negócios somente aos clientes que autorizaram, expressamente, tal uso.

Caso o cliente não queira mais fazer parte do programa, ele tem este direito e deve expressamente cancelar sua participação.

Além disso, mensalmente, as instituições deverão informar em seu site:

  • Volume negociado utilizando oferta RLP
  • Percentual de clientes atendidos
  • Quantidade de clientes que tiveram algum tipo de benefício com a oferta RLP

Entre outros dados a informar.


Programas de Liquidez

Nos Estados Unidos, desde 2012 o programa de oferta RLP está ativo.

Inclusive, há o famoso caso da Knight Capital que perdeu aproximadamente 440 milhões de dólares no dia da implementação do programa devido a um bug, um dos mais caros da história.

O caso é tão famoso que virou até estudo de caso.

Além da RLP, na NYSE, por exemplo, há outros programas de liquidez, como:

  • NYSE Retail Liquidity Program (RLP)
  • NYSE Supplemental Liquidity Providers  (SLP)
  • NYSE Arca Retail Liquidity
  • NYSE Arca LMM

Como uma visão pessoal, considero a iniciativa da B3 positiva, equiparando nosso mercado aos mercados internacionais mais maduros.


A RLP Na Prática

É importante ressaltar que as ordens RLP não estarão visíveis no book de ofertas.

E quanto à transparência?

Pois bem, após o negócio ser fechado o registro constará no histórico de negócios (Times and Trades em muitas plataformas) com a devida anotação de que foi uma negócio fechado via RLP.

Assim, pré-negociação (Book de Ofertas) não há transparência, somente na pós-negociação (Times and Trades).

O Spread

As ordens RLP deverão prover liquidez aos clientes das corretoras por preço igual ou melhor que o de mercado.

Assim, no caso dos mini-contratos, por exemplo, caso o spread seja o mínimo de 1 tick, a oferta RLP por parte da corretora deverá ser colocada no bid ou ask.

Entretanto, caso haja um spread maior que 1 tick, a corretora deverá agir colocando ordens a melhores preços, ou seja, se tivermos um spread de, por exemplo, 4 ticks, a corretora deverá oferecer melhor spread para o cliente, sendo este menor que os 4 ticks já oferecidos no mercado.

Este é o princípio de melhor execução.


Argumentos Pró e Contra a RLP

O Relatório de Consulta Pública disponível no site da B3 mostra alguns argumentos contra e a favor da implementação da oferta RLP.

Um dos argumentos contra a RLP que mais deve preocupar o trader de varejo é a questão do conflito de interesses:

Conflito de interesses

2.12 A oferta RLP tenderia a acentuar o problema do conflito de interesses da atuação da corretora em relação a seus clientes de varejo.

2.13 Como a corretora atuaria como contraparte das operações e ganharia o spread, teria incentivos para direcionar seus clientes para produtos que contam com a oferta RLP, mesmo que estes não fossem os mais adequados para tais clientes.

2.14 O conflito de interesses também estaria presente no desenvolvimento de algoritmos de negociação para os clientes. A corretora teria duplo papel, ou seja, desenvolveria o algoritmo utilizado pelo cliente e negociaria, via RLP, contra as ordens geradas pelo próprio algoritmo. Poderiam existir incentivos para o desenvolvimento de algoritmos menos eficientes ou até mesmo “viciados”.

2.15 No caso de fóruns on-line e de chats de negociação também haveria o duplo papel. No mesmo momento em que sugerisse pontos de entrada ou de saída do mercado, como é comum em tais ambientes, a corretora poderia negociar contra seus clientes por meio da oferta RLP.

2.16 A B3 deveria fazer uma análise dos clientes que realizam day trade nos minicontratos futuros de Ibovespa e de dólar. Deveria verificar por quanto tempo negociam, quais os resultados obtidos, se há migração para outros produtos ou se simplesmente abandonam o mercado depois de algum tempo.

Há, também, o argumento de que há um maior risco de seleção adversa, podendo levar à redução da liquidez e ao aumento dos spreads (justamento o efeito contrário ao esperado):

Maior risco de seleção adversa e seus impactos sobre a formação de preços

2.1 Participantes da consulta pública argumentaram que, na medida em que a corretora passaria a ter prioridade para negociação contra parcela de seu fluxo de varejo, haveria aumento do risco de seleção adversa sofrido pelos market makers (formadores de mercado) que atuam no livro.

2.2 Em geral, os investidores de varejo tendem a ser menos informados do que a média do mercado. Ou seja, normalmente, é menos arriscado negociar contra fluxo de ordens de varejo do que contra outros tipos de fluxo. Na medida em que a corretora passasse a ter prioridade para negociar contra parcela do fluxo de varejo, o fluxo que chegaria até o livro passaria a ser, na média, mais informado, ou seja, mais arriscado para os market makers.

2.3 O aumento do risco poderia fazer com que os market makers reduzissem os volumes negociados e/ou aumentassem os spreads, o que seria ruim para todos os investidores, inclusive os investidores de varejo que utilizassem a oferta RLP.

Em contrapartida, um argumento a favor da RLP diz que a mesma aumentará a liquidez no mercado:

Círculo virtuoso com benefícios para todo o mercado

3.1. O incentivo econômico proporcionado aos intermediários pela oferta RLP faria com que estes investissem mais na prospecção de novos clientes de varejo, ampliando a base de clientes e, por consequência, a liquidez dos mercados.

3.2. A oferta RLP propiciaria aumento da liquidez do livro de ofertas devido ao efeito de transbordamento, ou seja, a combinação do aumento do fluxo de ordens de clientes de varejo com o limite de 15% (cap).

3.3. A oferta RLP viabilizaria também a participação de corretoras com fluxos de varejo menores, as quais poderiam vender seus fluxos para agentes consolidadores.

3.4. Não se trata apenas de teoria. A atuação da carteira proprietária da corretora contra o fluxo de ordens agressoras de clientes de varejo é uma realidade em alguns dos maiores mercados do mundo e contribui para o fortalecimento da atividade de intermediação.


Conclusão

Ainda é cedo para avaliar os efeitos da oferta RLP no mercado.

Com certeza, haverá polêmica.

Fato é que em mercados mais maduros este tipo de programa já acontece, talvez não exatamente como o proposto para nosso mercado, mas, existe.

Tudo que for em prol da melhora das negociações e acesso aos pequenos investidores deve ser visto como uma conquista.

Claro que o caminho nem sempre é liso e que turbulências são esperadas, contudo, acredito que nosso mercado está no caminho certo!

Para maiores esclarecimentos, recomendo assistir o vídeo da CVM Educacional sobre oferta RLP.

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Rafael Iasi

Rafael Iasi é o idealizador do site Day Trader Pro. Atua no mercado como day trader independente desde 2013 e é um dos pioneiros na difusão da moderna analise de fluxo de ordens no Brasil. Desde meados de 2015 vem colaborando, através de artigos, vídeos e cursos, na formação de milhares de outros day traders que acompanham o site, canal do youtube e mídias sociais da Day Trader Pro.

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